edição:Velho Conselheiro Ze de Mello a 4.1.08
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Duas centenárias palmeiras e um sinal de proibido entrar. Durante mais de um século foi quase interdita, mas a saída... Um homem guardava ainda o portão do Centro Educativo de Vila Fernando, Elvas, mas já ninguém ali passa. Não é novidade. Sempre foi assim. As saídas interditas, as entradas forçadas. "Tivemos muitas histórias aqui sim. Aqui entraram muitos miúdos, milhares ao longo dos anos, uns terão morrido, outros fugiram, e outros ainda terão melhorado a sua forma de ver a vida. Mas fomos fazendo o melhor que podíamos", conta um dos funcionários, António Silva, que fez desta a sua morada profissional durante quase 20 anos, "antes da reforma, quando começaram a surgir os rumores do fim", conta. Durante mais de um século, o Centro Educativo de Vila Fernando acolheu jovens problemáticos oriundos de todo o País (ver caixa). Fechou oficialmente no último dia do ano. Em 2009 deverá abrir no local uma prisão de alta segurança. Nas povoações próximas, são já lembrança difusa os tempos em que grupos de jovens causavam alvoroço aos fins-de-semana quando tinham tempo livre fora dos muros da casa de correcção, provocando a pacatez dos lugares e das pessoas. "Aquilo era complicado, alguns eram boas pessoas, mas outros, Deus nos livre..., só queriam era arranjar problemas", conta Gertrudes Carreeira, uma das mais antigas habitantes de Vila Fernando. E agora, com uma prisão, que em vez de meninos, trará homens, condenados pela vida? "Acho que nesta nova, que vai abrir para o ano, não vão poder sair quando querem, pois não?!", pergunta Gertrudes, preocupada, entre as linhas de ponto de cruz, que vai construindo com as mãos já ensinadas. A alta segurança que se anuncia responde-lhe à pergunta e devolve-lhe o olhar às costuras.Um dos últimos rapazes que aqui passaram algumas jornadas de aprendizagem para a vida foi Orlando Cruz, da Amadora. "Cheguei aqui com 14 anos. Parecia o fim do mundo. Era um bocado malandro." Um "bocado" que o fez passar aqui largos meses. "Talvez tenha sido bom para mim, o que é facto é que conheci uma alentejana e me casei, arranjei trabalho e nunca mais voltei à Linha de Sintra." Para fugir aos maus hábitos, ou a uma vida que não tinha muito disso, "tive sorte", explica, "ao contrário de outros que seguiram nos maus caminhos e nunca mais regressaram aos eixos", conta.Esta e outras histórias, de fazer rir e chorar, acabaram. O portão há-de fechar-se pela última vez, vão levantar- -se os muros altos e armados, sobre uma casa que foi lar e prisão, para quem não a pôde evitar. Talvez para o ano, algumas dessas crianças que aqui passaram a juventude regressem, feitos homens, de barba feita, condenados pelo destino incerto desde sempre. Afinal, o mundo não é perfeito e as pessoas também não. "A verdade é que o serviço como estava já não ajudava ninguém... Há anos que sentíamos dificuldades, não havia dinheiro para nada e percebia- -se que, tal como a maioria dos "putos" daqui, também nós estávamos esquecidos. Vamos deixar de acolher jovens em risco, para passar a acolher homens que nos põem a todos em risco", desabafa um outro funcionário do Centro Educativo, António. "Ironia estranha... quase como se se passasse da esperança em querer mudar algo para o pragmatismo de ser realista." Tudo uma questão de ter, ou não ter, esperança no futuro. "Sim, é a vida assim, não é?!"Há cerca de ano e meio, o ministro da Justiça anunciou a construção de uma cadeia de alta segurança, precisamente nas instalações do Centro Educativo, uma área de mais de mil hectares. O investimento ronda os 40 milhões de euros. O novo estabelecimento irá albergar cerca de mil presos e deverá abrir em 2009.
in: DN, PEDRO COIMBRA DO AMARAL, Évora

1 comentários:

Jose Ferreira disse...

Ex.º Sr Zé de Mello:

Muito e muito lhe agradeço que aos seus "links" junte este da autoria do Eng.º Joâo Carrillho, assessor saneado do Ministério da Agricultura, foi afinal o Zé de Mello que sugeriu que todos tivéssemos um blog:

http://mobilizados.blogspot.com/

Muito e muito obrigago, bem haja!

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