edição:Velho Conselheiro Ze de Mello a 2.8.07
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O Museu de Elvas

por Alexandre Pomar no seu blogue (link )



1 - Como passa uma colecção a museu? Uma pista para a resposta é a disponibilização de um edifício, o que legitima entretanto o nome. As ideias de sedimentação ao longo do tempo, de extensão e exaustividade, de escolha e representatividade são em grande medida dispensáveis, agora, por evolução recente das coisas. De excelência e excepção não se deve falar.O edifício tem de facto muitas qualidades. Fica no centro histórico, recupera o antigo hospital da Misericódia, é branco e amplo, sem ser demasiado grande. Aquirido em 2002 pela Câmara Municipal, com objectivo de ser transformado em instituição museológica, foi adaptado por uma equipa multidisciplinar constituida pelo arquitecto Pedro Reis e pelos designers Filipe Alarcão e Henrique Cayatte. Contou com os adequados fundos comunitários. ver site

2 - Há (mais) uma razão para ir a Elvas, ou passar por. Em Badajoz a colecção (MEIAC) é ibero-americana (estremenha, espanhola, portuguesa e latino-americana) e é moderna e contemporânea (com ilustres "extremenhos", como Timoteo Pérez Rubio!), mas tem uma dinâmica intermitente; em Malpartida, além da paisagem, há Vostell e artistas relacionados, cada vez menos contemporâneos como as histórias da transumância que são um dos momentos fortes da visita; em Cáceres, onde existe um precioso casco histórico, haverá a colecção internacional de Helga de Alvear. Não estamos na primeira linha, não nos enganemos. Aliás, a ideia de colecção (museu?) de arte contemporânea é um pouco esdrúxula, uma facilidade de linguagem. Pode vir a ser, com o tempo, continuando, fazendo escolhas, preenchendo lacunas, escondendo logros momentânos, revisitando curiosidades pontuais. Mas à partida é como uma biblioteca onde se juntassem só os novos livros que vão saindo. Aliás, só livros de novos autores e só portugueses.Por mais estimável que seja o propósito, um acervo de jovens artistas é uma colecção de promessas. Às vezes, talvez de achados, outras vezes de trabalhos de bons alunos. Está-se muitas vezes a confundir artistas com licenciados em arte... Museu é outra coisa. E a arte contemporânea é contemporânea por muito pouco tempo. Temos sido contemporâneos de muitas coisas diferentes e sucessivas. Iremos habituar-nos, também neste domínio, a usar e deitar fora? Coisas e pessoas.



3 - Abrindo como museu, o que se apresenta em Elvas é uma exposição, à qual se chama colecção: "Colecção António Cachola: Uma Colecção em Progresso – Parte I", no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, o MACE. Uma escolha da colecção, mas não, certamente, uma escolha só do melhor da colecção, para que outras obras se reservem para próximas remontagens.Como as palavras voam, um jornal, o Público (Ípsilon), podia pôr assim em destaque o acontecimento triplo (Museu, colecção, exposição): "Uma colecção que cumpre a função que mais nenhuma instituição nacional cumpre: mostrar a arte mais recente que se faz por cá". Julgar-se-ia que as galerias mostram em permanência e sucessivamente a arte mais recente, e que as instituições (museus, centros de arte) deveriam usar de alguma distância cronológica (mostrar o que importa rever, exercitando e pondo à prova a escolha do que mais importa) e também a distância geográfica (o que se faz lá fora agora, quando o mercado tem grandes carências logísticas). Mas o que mais fazem e têm feito quase sempre, quase todas as instituições, é mostrar a tal arte mais recente, a que circula nas galerias - por falta de meios para fazer melhor; por ambição dos seus directores actuarem sobre a dinâmica do mercado mais efémeramente actual, já que faltam condições para mais elevados desígnios. O Público, aliás, sempre que se referiu ao museu inaugurado no CCB chamou-lhe polémico e lembrava as amplas reservas de amplos sectores do nosso pequeno mundo (?) da arte. Elvas realizou-lhe as ambições e definiu-lhe os horizontes. Tudo em bastante pequeno.



4 - Colecção tem um diferente sentido quando é entendida como acervo pessoal, conjunto privado de obras, ou quando é projectada como acervo público, núcleo de peças em exposição pública. No segundo caso fica sujeita a um escrutínio que lhe exige um argumento específico, para além das acidentais circunstâncias das aquisições, e também uma estratégia de montagem, uma "lógica" que não seja só a resposta ao espaço disponível.Em Badajoz, em 1999, João Pinharanda usou no espaço vasto do MEIAC três tópicos de grande espectro para segmentar o itinerário, balizado por algumas compras que fez para a ocasião: imagens do corpo, as determinações do lugar, linguagem e decoração (esta seria uma abordagem irónica do que resta dos códigos modernistas). Em 2005, quando voltou a ser chamado para criar uma imagem pública para o coleccionador conforme com o que se julga ser um coleccionador, optou por uma distribuição aleatória.

A adaptação do hospital a lugar de exposições é limitada pela configuração das galerias, que são extensas em comprimento e não favorecem a aproximação frontal às obras, e em especial aos quadros - o caso mais óbvio é a pintura de João Jacinto, em especial quando fica sujeita à iluminação de um projector lateral.Como sucedia no Reina Sofia, outro hospital, a escultura tem uma presença mais confortável. No caso de Joana Vasconcelos, com A Noiva, montada na capela, entre azulejos quase profanos, e com Wash and Go à passagem. Ou a grande árvore de João Pedro Vale, A culpa não é minha, 2003. E Ângela Ferreira, Marquise, 1993, com os seus documentos fotográficos (e ainda sem demagogias políticas). Mas José Pedro Croft acentua uma direcção de trabalho que é só decorativa, escusada.

Na escadaria nobre, Jorge Molder, com três auto-retratos em sofrimento, deslocados nesse espaço de acolhimento (não de recolhimento), mais um desenho também a preto e branco de Pedro Calapez e em cima, elevada, a escultura negra de Rui Chafes - a única certa com o lugar. A cor seria bem vinda nesse espaço luminoso e Molder, que está muito bem no CCB-MCB, é excêntrico na colecção, atendendo ao seu horizonte cronológico, que cobre as aparições dos anos 80 (Sarmento estaria também fora, apesar de muito referido, talvez por hábito).

O acervo exposto e o conhecido regista, a partir do final dos anos 80, algumas das aparições dessa década, e faz algumas escolhas na seguinte - não recua a promoções anteriores (Sarmento, Calhau, José de Carvalho, Barrias, Graça Morais, Palolo) nem acolhe as mutações maiores desses anos, como Paula Rego, Dacosta, etc. O horizonte da colecção é estreito. Veremos com a continuação se a prática é a de pegar e largar, quando os artistas revelados nos 80 e 90 que se confirmam com a evolução do seu trabalho se tornam artistas caros, passando a outros sucessivos jovens e prometedores artistas, ou se a colecção se sedimenta e valoriza com obras que sejam a confirmação das carreiras. Mais uma vez, uma colecção de promessas será um museu de curiosidades rapidamente relegadas para o esquecimento.

Na dispersão das obras e dos artistas no itinerário expositivo há peças para diferentes critérios, peças que já consumiram a sua curiosidade inicial, peças que resistem, acertos e desacertos (a Ala Norte de Cabrita Reis, tem uns 11,6 metros que são excessivos para o espaço de que dispõe). É, em vez de um museu, mais do que uma colecção, uma mostra colectiva guiada pelo gosto do comissário, pelas suas afinidades e anteriores apostas. Fica a convicção que a montagem mais acertada mostraria em sucessivos núcleos as várias obras de alguns artistas (aqui aparecem em pontos diferentes, isoladamente). Menos artistas com mais obras cada. Esse é um dos méritos da colecção (ter acompanhado já alguns artistas em diferentes momentos). Mas essa montagem escolhida esgotaria talvez as disponibilidades do acervo.

12 comentários:

Anónimo disse...

...o MEIAC de badajoz privilegiou os artistas extremenhos, nos por cá no MACE marginalizamos os grandes Elvenses...

Anónimo disse...

...o rondão tentará apagar a memória do grande pintor Elvense Xico Pereira, tal como apagou a beleza das paredes da Cãmara...

Anónimo disse...

...o grande António Cadete está excomungado pelos socialistas porque faz caricaturas do rondão no Jornal "O Despertador", único jornal oposicionista porque não precisa do dinheiro da Câmara, e nunca poderá ter obras no Mace...

Anónimo disse...

...as grandes artistas elvenses Céu Peguinho e Elisabete fiel nunca lá terão uma obra exposta, não têm cartão rosa...

Anónimo disse...

...tudo no MACE está protegido pela redoma rosa do comendador...

Anónimo disse...

...o extraordinário Prof. Arq.º João Pinharanda já só é uma figura decorativa, qualquer boy do rondão já pesa mais que o Pinharanda...

Jacinto César disse...

Caro Zé de Mello e comentadores.

Como já anteriormente aqui tinha referido o meu nome aparece aqui em vários comentários.

Como só o fiz por uma ou duas vezes, todos os outros não são meus.
Como tal resolvi escrever aquilo que entendo num blog própio sem ter o problemas dos clones.
Para que quizer dar as suas opiniões aqui fica a URL

tascadasamoreiras.blogs.sapo.pt

Os meus cumprimentos

Jacinto César

Anónimo disse...

Então agora bateste á sola?
Deixa lá que te iremos lá a bater na corneta!
Jacintocesar-o gémeo

Anónimo disse...

...o blog do jacinto é muito interessante, tem 2 posts, um do jacinto e outro do venancio...

Anónimo disse...

...quando o jacinto posteia o venancio comenta...

Anónimo disse...

...quando o venancio posteia o jacinto comenta...

Falso Cesar (o verdadeiro) disse...

Jacintinho:
Fugiste?
tás com medo?
Compra um cão, trás quem quizeres mas não abandones a luta
Um blog não chega para justificar a falta deles para a discussao
ou será que é um blog para lamber os do Regedor?

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